Exactamente há 3 anos atrás, disse-lhe “Adeus”

Ganhei coragem e disse-lhe “Adeus”. Era altura de o dizer, de me despedir, de dizer “não quero mais isto”. Disse-lhe “Adeus”. A uma carreira de quase 20 anos numa indústria que, como 99% de todas as outras, te vê como um pequeno detalhe, um número de uma célula num Excel, um grão de areia, uma estatística, independentemente do título pomposo que a tua assinatura de E-Mail possa ter. Eu estava a dar cabo de mim. Estava a morrer mais depressa do que imaginava. E tinha de recomeçar. Fazer um “Reset” e voltar a viver. A recuperar a minha vida, a alegria de me sentir relevante, a alegria de deixar um impacto, um legado por assim dizer. E depois da decisão, foi quando se levantaram as cortinas da vida e me mostraram o que eu não conseguia ver pelo facto das coisas por vezes só aparecerem quando damos os primeiros passos para o que realmente queremos.

O 1º dia do resto da minha vida foi exactamente há 3 anos atrás, dia 29 de Novembro de 2013. Larguei tudo e recomecei. Renasci. Uma 2ª vida mas a começar aos 38 anos, com uma maturidade que não se tem quando se nasce no princípio da vida. Se foi fácil? Não, óbvio que não. Se foi simples? Não. Se tive medo? Sim! Se me senti inseguro? Sim! Pensei no pior? Sim! Pensei no melhor? Também Sim! Andei numa dualidade gigantesca durante um bom período de tempo. Os demónios noturnos vinham sempre bater-me no ombro à noite a alertarem-me: “Cuidado, vai correr mal…”, “Não deites fora o bem mais precioso na sociedade portuguesa hoje, um trabalho”, “E se bateres com a cara no chão, como vais sobreviver???”. Ainda hoje, passado este tempo todo, tenho aquela sensação estranha de que me “baldei às aulas”. O sentido de trabalho para outrem faz-te isto mesmo quando neste momento só trabalhas para ti. Estás livre, mas sentes que estás ainda lá. São muitos anos afinal, não passa assim. A questão é que eu tive a oportunidade de mudar de vida e mudei. E isto que vou dizer é verdadeiramente sentido: todas as pessoas mereciam uma oportunidade igual à minha, de mudar, de saírem de um trabalho que lhes tira os melhores anos das suas vidas e que só lhes permite pagar as contas, dando-lhes ao mesmo tempo a ilusão que estão a fazer alguma coisa de relevante com as suas vidas. Se as pessoas depois querem aproveitar essa oportunidade ou não, isso é uma decisão delas, sobre a qual depois terão de viver com a responsabilidade dessa escolha. Mas ainda assim, reitero: todas as pessoas deviam ter a oportunidade que tive. E não só por poderem dedicar-se a algo que amam verdadeiramente fazer, mas pelo que têm a ganhar interiormente com isso, começando a aperceber-se de pessoas, situações e assuntos que são deixados ao acaso porque estamos demasiado ocupados a pensar em coisas que não interessam tanto como as que verdadeiramente interessam. Demasiado ocupados estando ocupados.

Os nossos títulos, salários, bens materiais nunca irão definir quem nós somos. Eu vivi essa realidade anos a fio, assinaturas pomposas, fatos caros, camisas engomadas, nós de gravata perfeitos, a “insinceridade” que se fazia sentir porque em Portugal ninguém sabe lidar com a verdade, dita de forma nua e crua, correndo o risco de se ser desbocado ou dissidente, um inadaptado, fora de passo com o mundo. Quando entrava em reuniões e deixava os tomates à porta. Tudo isso. Eles andam do lado esquerdo da estrada mas tu é que és o maluco e vens em sentido contrário. As palmadas nas costas e os egos inflamados. Que ilusões. Tudo mentira. A única verdade naquilo tudo era que estávamos a tornar-nos pior todos os dias. E eu não queria mais fazer parte daquilo.

Hoje tenho um negócio meu, cuja ideia surgiu apenas 2 meses após ter assinado os papéis. Não esperei ter algo para tomar o passo. A ideia surgiu só depois de eu já ter passado o ponto de não retorno. Confiei na minha decisão e fui. Ninguém muda radicalmente de vida para que as coisas corram mal. Sim, podem correr claro, mas a intenção é sempre para melhor, sempre para nos sentirmos mais felizes, mais satisfeitos, mais donos de nós próprios e do traçar do nosso caminho. Mas acredito verdadeiramente que a sociedade está a caminhar no sentido de, cada vez mais, nós resgatarmos as nossas vidas e vivermos, não sobrevivermos. Há cada vez mais pessoas a irem por aqui. Oxalá seja assim, por vocês e pela sociedade em geral.

Queria também partilhar que tudo o que vivi do outro lado da minha vida, começando aos 19 e saindo aos 38 foi uma tremenda escola. Há que reconhecer isso, sem dúvida. Ao longo deste trajecto, encontrei também pessoas formidáveis, tremendamente inspiradoras, que me formaram, que me ajudaram, que me compreenderam, que me apoiaram, que apostaram em mim, que se tornaram melhores amigos e que me ensinaram tanto do que aplico ainda hoje na minha realidade pessoal e profissional. Agradeço de coração cheio a essas pessoas mas também a todas aquelas que me fizeram “mal”. “Mal” entre aspas porque é um “mal” que é um “bem” porque todos foram mestres, todos ensinaram, nem que fosse a que eu não me viesse a tornar nunca como eles. Fizeram parte integrante do meu trajecto e moldaram a minha personalidade, de uma forma ou de outra. Estendo o meu agradecimento a essas pessoas naturalmente. “Atenta ao que te incomoda, tens aí um mestre”, diz o Dalai Lama. Sábias palavras, como se diz tanto em tão pouco. Mas é difícil ver isto quando estamos em estados de fúria, saturação, infelicidade. Em bom português, nessas alturas o que mais apetece é mandar essas pessoas “à merda”. Mas isso passa. Garanto.

Não pretendo que este texto seja o texto de “eu tenho a resposta para ti e para como podes viver a tua vida”. Não. A minha situação teve as suas características únicas e não quero de todo achar que todas as pessoas simplesmente vivem pelos mesmos moldes e padrões ou estímulos do que eu, até porque cada pessoa tem naturalmente particularidades de vida que podem ser impeditivas de grandes mudanças. Para mim resultou mudar. Hoje vivo o meu sonho. E penso que no geral, as pessoas não vivem os seus sonhos porque vivem os seus medos. E a ilusão da segurança será sempre maior do que o desconforto da mudança. Por isso, desejo que a todos aqueles que têm essa luzinha ou comichão de mudar, que os vossos dias sejam melhores para que o vosso impacto no mundo possa ser melhor. Depende maioritariamente de vocês, mais do que de factores exteriores. Alimentem isto: A liberdade encontra-se do outro lado do medo e o melhor presente que podem dar ao vosso futuro é entregarem tudo ao presente.

Namaste!

Bruno Piairo Teixeira

9 Responses to “Exactamente há 3 anos atrás, disse-lhe “Adeus””

  1. Nuno Vieira Says:

    És Grande Bruno.Abraço.

  2. Rui Martins Says:

    Amigo Bruno,
    Tiveste a coragem que falta a milhares ou milhões de pessoas, a nossa sociedade vive “encarneirada” e se sais fora do rebanho és olhado com soslaio e com um murmurio entre lábios “mais um que se vai entalar”, gabo-te a coragem e eu próprio confesso não a ter.
    A nossa sociedade precisa de mais Brunos.
    Grande abraço e obrigado, adorei o texto.
    /Rui

  3. José Pedreira Says:

    Muito, muito bom!

  4. Muito bom Bruno. Totalmente alinhado😉
    Grande salto de fé no escuro.. sei bem como custa e sei também bem o que vale e conta!

    Fico feliz sempre que encontro outras pessoas que não se remetem “ao tem de ser” apenas porque “sempre foi assim” e decidem seguir o coração.

    Partilhei o teu texto como complemento a uma reflexão que fiz há algum tempo atrás no Facebook..
    Grande abraço.

    • In Defense Of Reality Says:

      Obrigado Rúben, li a tua reflexão no FB, a analogia é perfeita. Tudo a correr bem! Abraço!

      • É sentido😉
        Fico feliz por te identificares.
        Está a juntar-se um movimento de “guerreiros pacíficos” e está já imparável, bom encontrar pessoas que seguem o coração.
        Forte abraço

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