Siddhartha, de Hermann Hesse, Parte IV

Eis a minha 4ª e seleccionada última parte de Siddhartha, de Hermman Hesse, a que penso ter mais essência e profundidade, deste autor, muito à frente no seu tempo.

“…há no entanto um pensamento que me marcou profundamente Govinda: a sabedoria não é comunicável. A sabedoria que um sábio tenta comunicar parece sempre ridícula.
– Estás a brincar?
– Não, digo-te o que descobri. O conhecimento pode ser comunicado, mas a sabedoria não. Uma pessoa pode encontrá-la, vivê-la, ser fortificada por ela, operar maravilhas pelo seu intermédio, tudo menos comunicá-la e ensiná-la. Desconfiei disso quando era novo e foi isso que me afastou dos mestres. Tive um pensamento Govinda, que igualmente suporás ser uma brincadeira ou uma tolice: em toda a verdade, o oposto é igualmente verdade. Por exemplo, uma verdade só pode ser exprimida e envolta em palavras se for parcial. Tudo quanto pode ser pensado e exprimido por palavras é parcial, apenas metade da verdade; falta-lhe totalidade, integralidade, unidade. Quando o Sábio Buda ensinou acerca do mundo, teve de o dividir entre Samsara e Nirvana, em ilusão e verdade, em sofrimento e salvação. Não se pode proceder de outra maneira, não há outro método para aqueles que ensinam. Mas o próprio mundo que está em nós e à volta de nós, nunca é parcial. Um homem ou uma acção jamais são inteiramente Samsara ou inteiramente Nirvana; um homem jamais é inteiramente sábio ou inteiramente pecador. Parece apenas que assim sucede porque temos a ilusão de que o tempo é algo real. O tempo não é real Govinda, compreendi-o repetidas vezes. E se o tempo não é real, então a linha divisória que parece existir entre este mundo e a eternidade, entre o sofrimento e a beatitude, entre o bom e o mau, então essa linha, é, também, uma ilusão.
– Como se explica isso? – Perguntou Govinda, intrigado.
– Escuta meu amigo! Eu sou um pecador e tu és outro, mas um dia o pecador voltará a ser Brame outra vez, um dia alcançará o Nirvana, um dia tornar-se-á um Buda. Ora este “um dia” é ilusão, é apenas um termo de comparação. O pecador não vai a caminho de um estado búdico, não está em evolução, embora o nosso raciocínio não possa conceber as coisas de outro modo. Não, o Buda potencial já existe no pecador, o seu futuro já está nele. O Buda potencial oculto deve ser reconhecido nele, em ti, em toda a gente. O mundo, Govinda, não é imperfeito nem evolui lentamente por um caminho que conduz à perfeição. Não, é perfeito em todos os seus momentos, cada pecado já traz a graça consigo, todas as crianças são velhos potenciais, todos os bebés já têm a morte dentro deles, todos os moribundos já têm consigo a vida eterna. Não é possível a uma pessoa ver a que distância outra se encontra no caminho; o Buda existe no ladrão e no jogador de dados; o ladrão existe no brâmane. Durante a meditação profunda é possível banir o tempo, ver simultaneamente todo o passado, presente e futuro, e então tudo é bom, tudo é perfeito, tudo é Brâme. Portanto, parece-me que tudo quanto existe é bom – a morte como a vida, o pecado como a santidade, a sensatez como a leviandade. Tudo é necessário, tudo necessita apenas da minha concordância, do meu consentimento, da minha tenra compreensão; assim, tudo estará em mim e nada me poderá prejudicar. Aprendo através do corpo e da alma ser necessário que eu pecasse, que precisasse da luxúria, que tivesse de lutar para acumular bens e sentir náusea e desespero profundo, a fim de aprender e não lhes resistir, a fim de aprender a amar o mundo e a deixar de compará-lo com qualquer espécie de desejado mundo imaginário, com qualquer visão imaginária da perfeição. O essencial era deixá-lo como é, amá-lo e sentir-me feliz por lhe pertencer. Estes, Govinda, são alguns dos pensamentos do meu espírito.

Siddhartha baixou-se, apanhou uma pedra e conservou-a na mão.
– Isto é uma pedra – prosseguiu – e dentro de certo espaço de tempo será, talvez, solo e de solo, tornar-se-á planta, animal ou homem. Anteriormente, eu teria dito “Esta pedra é apenas uma pedra; não tem valor, pertence ao mundo de Maya, mas talvez no ciclo de mudança também se pode tornar homem e espírito, é igualmente importante.” Isto é o que eu teria pensado. Mas agora penso: “Esta pedra é uma pedra; também é animal, Deus e Buda. Não a respeito e amo por ser uma coisa e vir tornar-se noutra qualquer, mas sim porque já foi tudo há muito tempo e é sempre tudo. Amo-a porque é uma pedra, porque hoje e agora me parece uma pedra. Vejo importância em cada uma das suas marcas e cavidades, no amarelo, no cinzento, na dureza e no som que produz quando bato com ela, na secura ou humidade da sua superfície. Há pedras cujo contacto lembra óleo ou sabão, que parecem folhas ou areia, e cada uma delas é diferente e adora Om à sua maneira; cada uma delas é Brâme. Ao mesmo tempo é muito pedra, oleosa ou escorregadia como sabão, e é precisamente isso que me agrada e parece maravilhoso e digno de adoração.” Mas não digo mais nada a este respeito. As palavras não exprimem muito bem os pensamentos. Estes tornam-se sempre um pouco diferentes logo após serem exprimidos, um pouco deformados, um pouco idiotas. E, no entanto, também me agrada e parece certo que pareça a um homem idiotice o que a outro parece ter valor e sabedoria.
Govinda escutara-o com em silêncio.
– Porque me falaste da pedra? – perguntou, hesitante após um momento.
– Fi-lo sem qualquer intenção. Mas talvez exemplifique que eu amo a pedra, e o rio, e todas estas coisas que nós vemos e com as quais podemos aprender. Posso amar uma pedra Govinda, ou uma árvore, ou um bocado de cortiça. São coisas e uma pessoa pode amar coisas. Mas não pode amar palavras. Por isso, os ensinamentos não têm qualquer utilidade para mim; não têm dureza, nem macidez, nem cores, nem arestas, nem cheiro, nem gosto – não têm nada além de palavras. Talvez seja isso que te impede de encontrar a paz, talvez haja demasiadas palavras, até mesmo para salvação virtude. Samsara e Nirvana são somente palavras, Govinda. Nirvana não é uma coisa existe apenas a palavra Nirvana.
– Nirvana não é apenas uma palavra, meu amigo – protestou Govinda – é um pensamento.
– Será um pensamento, mas devo confessar-te meu amigo, que não diferencio muito entre pensamentos e palavras. Para ser franco, também não atribuo grande valor aos pensamentos. Atribuo mais importância às coisas. Por exemplo, neste molhe existiu um homem que foi meu predecessor e mestre. Era um homem santo, que durante muitos anos acreditou somente no rio e em mais nada. Reparou que a voz do rio lhe falava e ele aprendeu com ele, o rio instruiu-o e ensinou-o. O rio era como um deus para ele e durante muitos anos o barqueiro não soube que todos os ventos, todas as nuvens, todas as aves e todos os insectos são igualmente divinos e sabem e podem ensinar tão bem quanto o seu estimado rio. Mas quando este santo homem partiu para a floresta, sabia tudo. Sem professores nem livros, sabia mais do que tu e eu, só porque acreditava no rio.
– Mas aquilo a que chamas “coisa” é algo real, algo intrínseco? Não se trata apenas da ilusão de Maya, somente de imagem e aparência? A tua pedra, a tua árvore, são reais?
– Isso também não me perturba muito – respondeu Siddhartha. Se são ilusão, nesse caso eu também sou ilusão e, portanto, elas continuam a ser da mesma natureza que eu. É isso que as torna tão dignas de amor e veneração, é por isso que sou capaz de as amar. E aqui vai uma doutrina de que te rirás: Parece-me, Govinda, que o amor é a coisa mais importante do mundo. Para os grandes pensadores, poderá ser importante estudar o mundo, explicá-lo e desprezá-lo. Mas eu penso que o importante é apenas amar o mundo e não desprezá-lo, que o importante não é odiar-nos uns aos outros e sim, sermos capazes de ver o mundo, a nós próprios e a todos os seres com amor, admiração e respeito.
– Compreendo isso, mas trata-se apenas daquilo a que o sábio chamava ilusão. Ele pregava a benevolência, a indulgência, a compreensão e a paciência, mas não o amor. Proibia-nos de nos prendermos ao amor terreno.
– Bem sei – declarou sorrindo, Siddhartha – Eu sei isso Govinda e aqui nos encontramos nós no labirinto dos significados, no conflito das palavras, pois eu não nego que as minhas palavras acerca de amor estão em aparente contradição com os ensinamentos do Gautama. É precisamente por isso que desconfio tanto das palavras, porque sei que tal contradição é uma ilusão. Sei que sou uno com o Gautama. Como podia ele não conhecer o amor, ele que reconhecera toda a vaidade e transitoriedade da humanidade, mas que apesar isso a amava tanto que dedicou uma longa vida exclusivamente a ensinar e a ajudar pessoas? Também com este grande mestre, a “coisa” tem, para mim, muito mais importância que as palavras; considero as suas acções e a sua vida muito mais importantes do que as suas palavras, o gesto da sua mão muito mais importante do que as suas opiniões. Não é pelas suas palavras ou pelos seus pensamentos que o considero um grande homem e sim pelos seus actos e pela sua vida.”

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