Siddhartha, de Hermann Hesse – Parte II

Mais uma das maravilhas desta obra de Hermman Hesse. Impossível não viajar nestas palavras e encontrar verdade nelas.

Mais um excerto de Siddartha, essa obra imemorial e intemporal que será sempre actual independentemente de por quanto tempo a humanidade possa avançar.

Bruno Piairo Teixeira

Siddhartha compreendeu também, por que motivo lutara em vão com o seu EU enquanto fora Brâmane e Asceta. Tolhera-o o excessivo saber. Demasiados versos sagrados, demasiados ritos de sacrifício, demasiadas mortificações da carne, demasiados esforços e lutas. Fora um pessoa cheia de arrogância. Tinha sempre sido o mais inteligente, o mais ambicioso – sempre um passo à frente dos outros, sempre o erudito e o intelectual, sempre o sacerdote ou o sábio. O seu EU infiltrara-se nesse sacerdócio, nessa arrogância, nessa intelectualidade. Instalara-se lá firmemente e crescera, enquanto ele pensava com jejuns e penitência. Agora compreendia-o, compreendia também que a voz interior tivera razão, que nenhum mestre lhe poderia ter dado a salvação. Por isso tivera de ir viver no mundo, de se perder na autoridade, nas mulheres e no dinheiro; por isso tivera de ser mercador, jogador de dados, bebedor e homem de bens, até morrerem o sacerdote e o samana que existiam nele. Por isso tivera de passar por aqueles anos horríveis, de sentir náusea, de aprender a lição da loucura de uma vida vazia e fútil até ao fim, até ao amargo desespero para que Siddhartha, o homem dos prazeres, e Siddhartha, o homem de bens, pudessem morrer. Morrera e do seu sono despertara um novo Siddhartha. Um Siddhartha que também envelheceria e morreria. Siddhartha era transitório, todas as formas eram transitórias, mas naquele momento ele era jovem, era uma criança – o novo Siddhartha – e sentia-se muito feliz.

One Response to “Siddhartha, de Hermann Hesse – Parte II”

  1. lifetimewar Says:

    Velho,
    Li esse livro numa fase menos boa e ao fim de poucas páginas comecei a sentir-me bem, exactamente por ter chegado a uma conclusão como o descrito neste post – e nem sei se esse trecho existe no inicio ou no fim do livro, mas presumo que até seja mais perto do fim que do início.

    Entretanto já consumi o “Narciso E Goldmundo” que não foge muito ao que o Siddhartha pretende, é um murro no estômago.

    Abraço,
    Pedro GRITA!😛

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