British Petroleum: A Sombra de Chernobyl, por Alejandro Nadal

A British Petroleum assegura que pagará os custos do desastre no Golfo do México. Mas o poço continua sem controle, expulsando diariamente milhares de barris de petróleo e gerando o pior desastre petrolífero na suja história dessa indústria. Na realidade, nem a BP, nem o governo dos Estados Unidos poderão cobrir o custo desta tragédia que muitos comparam erradamente com o derrame do Exxon Valdez no Alasca em 1989. Infelizmente, pelo seu alcance e duração, o parâmetro de comparação mais adequado é Chernobyl.

Quando um navio-tanque encalha e começa a derramar a sua carga, sabe-se pelo menos quantos milhares de barris transporta. Mas no caso do desastre da plataforma Deepwater Horizon ignora-se a quantidade que será derramada. Tudo vai depender das operações para fechar o poço que, segundo dados da BP, emite uns 5 mil barris diários. Outras estimativas talvez mais realistas situam este valor em uns 25 mil barris diários. Os esforços para controlar a catástrofe foram inúteis até hoje e dominar o poço pode demorar semanas. Mesmo com o dado conservador da petrolífera, o derrame do Golfo do México encaminha-se rapidamente para a superação do do Exxon Valdez (250 mil barris).

A plataforma Deepwater Horizon foi construída nos estaleiros da Hyundai em Ulsan, Coreia, em 2001. Esta estrutura flutuante com pontões e tanques de lastro nas suas gigantescas colunas foi desenhada para perfurar em águas ultraprofundas. Estava dotada de um sistema de geoposicionamento dinâmico que lhe permitia permanecer fixa relativamente a um ponto no fundo do mar. Esta tecnologia utiliza sensores de correntes e ventos para activar os motores que permitem à plataforma permanecer fixa no mar. A geo-referência é proporcionada por um ou mais giroscópios e todo o sistema é coordenado por computador.

Em Setembro de 2009, a Deepwater Horizon perfurou o poço submarino mais profundo do mundo, com uns 10 mil 700 metros (dos quais mil 260 metros correspondem à coluna de água). Em poucas palavras, esta é a tecnologia mais avançada em matéria de perfurações em águas ultraprofundas.
As empresas que operam plataformas na zona económica exclusiva dos Estados Unidos no Golfo do México sempre alardearam sobre a sua capacidade tecnológica e sobre as muito baixas probabilidades de acidentes com derrames. Por isso, sempre insistiram que, mesmo no caso de se produzir um derrame, os efeitos ambientais e sobre outras actividades económicas (pesca, turismo) seriam menores, temporários e fáceis de reparar.

Ao ocorrer a explosão e o incêndio, a plataforma operava a uns 80 quilómetros a sudeste da desembocadura do delta do rio Mississipi. O seu trabalho consistia em dar os toques finais ao poço, preparando o revestimento de cimento que devia permitir a sua exploração comercial. As origens da explosão continuam a ser desconhecidas, mas, tal como em Chernobyl, a reacção inicial dos responsáveis (BP e entidades reguladoras) foi minimizar as consequências do acidente.

Só em 31 de Março Obama anunciou que a sua administração abriria milhões de quilómetros quadrados à exploração e perfuração submarina no Golfo de México, no litoral do Atlântico dos Estados Unidos e no norte do Alasca. Não se sabe quanto petróleo crude pode haver nas jazidas submarinas nas zonas abertas à exploração, mas os dados geológicos indicam que no melhor dos casos apenas chegariam para cobrir o consumo estadunidense durante um ano. Estamos a falar de uma quantidade ridícula a troco de um dano ambiental extraordinário.

No litoral estadunidense do Golfo do México operam 3 mil 858 plataformas de perfuração submarina. Mas todas essas plataformas petrolíferas somente contribuem com 1,6 milhões de barris diários para o consumo dos Estados Unidos que ultrapassa os 19,5 milhões de barris diários. A autonomia energética dos Estados Unidos não vai provir de abrir novos campos ao desastre ambiental.
O paralelismo com a indústria nuclear tem outra componente: a limitação da responsabilidade dos responsáveis de um desastre. A legislação federal nos Estados Unidos estabelece que a BP deverá pagar os custos da reparação, mas limita a sua responsabilidade por danos económicos a apenas 75 milhões de dólares, uma migalha. Na verdade, a BP deverá recolher a factura do custo das operações, mas quem pagará o dano dos ecossistemas danificados?

O Torrey Canyon, o primeiro navio-tanque que encalhou e derramou a sua carga em 1967 frente à costa de Inglaterra, transportava 120 mil toneladas de crude. O barco partido a meio até foi bombardeado com 3 mil galões de napalm numa tentativa para queimar o petróleo e evitar o derrame. Tudo inútil, evidentemente, mas um bonito exercício de tiro ao alvo para a Royal Navy. Um exemplo edificante de como sempre se podem resolver os problemas que a tecnologia moderna nos coloca.

Fonte: La Jornada

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