Ainda Sobre Saramago, por Nuno Filipe

Ainda não tinha escrito nada sobre isto, porque preferi deixar os temperamentos acalmarem, e pacientemente, observar as reacções que se seguiram à morte de Saramago.

Morre o homem, fica a obra. Em última análise, fica o homem também. Não sei se para sempre, mas ficará por algum tempo. Foi preciso morrer para a TV pública em Portugal transmitir os filmes originados nos seus romances. É o habitual tributo aos mortos de Portugal, que condenou os seus maiores símbolos literários à vida e morte miseráveis, como Bocage, Pessoa ou Camões. Outras novelas…

Por esta altura, devem perguntar-se o que faz anexa a foto do bigodinho prestes a apertar a mão do Pio XII, Papa à data dos acontecimentos, que foi um dos principais cúmplices nos crimes do bigodinho. Já lá vamos.
As reacções à morte de Saramago foram, afinal, aquelas que se podiam esperar.
O povo relembrou o homem que levou o nome de Portugal aos píncaros, apesar de desconhecer grande parte da sua obra. Os comunistas aproveitaram para enfatizar o comunismo de Saramago, os partidos de direita respeitaram a morte na diversidade de valores que os distinguem de Saramago, o Presidente da República foi igual a si mesmo, ou seja, mesquinho, faccioso e actuando como um Rei eleito por engano, apenas por erro de cálculo de Sócrates e Soares, ao não se dignar pôr os calcantes no funeral.
A reacção que mais gostei foi a da Igreja. Ah!!! Está explicada a foto, ou pelo menos metade dela… E a outra metade, o bigodinho?? Já lá vamos. Hoje é Segunda e não é dia para grandes correrias.
O facto de a Igreja ter atacado a memória de Saramago um dia depois da sua morte não é nada de mais, já que faz jus à sua longa tradição de cobardia histórica em proteger os poderosos e atacar os mais fracos. Mas há uma frase do editorial do Observatório Romano, jornal oficial desse país fabulástico que é o Vaticano, que é realmente interessante. E diz o seguinte:
“Um populista extremista como ele, que tomou a seu cargo o porquê do mal do mundo, deveria ter abordado em primeiro lugar o problema das erróneas estruturas humanas, das histórico-políticas às sócio-económicas, em vez de saltar para o plano metafísico”.

Ou seja, para o Vaticano, a insistência de Saramago em culpar o metafísico pela crise mundial em que vivemos, pelas injustiças e guerras e outras coisas que tal e coiso, é vista como contraditória, uma vez que essas causas devem ser antes procuradas no plano social, estritamente humano. Sabendo eu e todos que Saramago era um ateu tranquilo, segundo as suas próprias palavras, não deixa de ser estranho que Igreja considere que o autor se referia a Deus quando criticava os escritos e acções da Igreja. Saramago nunca intentou criticar Deus, uma vez que não acreditava na sua existência. Logo, as suas críticas recaíam inteiramente no plano humano, na Igreja. E, por certo, mais na Igreja Católica, mais habitual e massificante nos países em que escolheu viver – Portugal e Espanha. Esta falta de clarividência católica também não é de espantar.

Posto isto, a contradição imensa em que a Igreja incorre é sempre a mesma. Ora, temos que de um lado os teóricos da Igreja apregoam o fundamento social desta Europa e outras partes do mundo como baseado na matriz religiosa judaico-cristã, defendida pela própria Igreja. O Islão e o Judaísmo fazem o mesmo, uma vez que todas se baseiam no mesmo livro e nos mesmo escritos arcaicos e mitos teológicos. Por outro lado, a sociedade que temos tem essencialmente estes valores judaico-cristãos imprimidos em séculos de repressão católica (e dos outros credos), mas tudo o que ocorre de mal no mundo já não é responsabilidade da Igreja, aí já é apenas responsabilidade humana. Chama-se a isto duas coisas, essencialmente: se, por um lado, a Igreja recusa terminantemente que outros valores que não os seus sejam aceites no interior da sociedade criada por si própria, por outro lado, recusa qualquer consequência da… convenhamos… rica merda que daí saiu. E era a essa dicotomia que Saramago se referia. Penso que nem todos entenderam a mensagem. Muito à frente, este Saramago.

Nuno Filipe

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