O Livro da Minha Vida

Ouvimos muitas pessoas dizer “a minha vida dava um livro”. Qual a que não daria? Independentemente da duração, curta ou longa, todas elas estão cheias de histórias, acontecimentos bons e tristes, fases, lutas internas, pessoas, etc. etc.. Um simples sorriso ou uma ida ao supermercado pode mudar a nossa vida de uma forma que jamais pensámos ser possível. Mas as pessoas que se cruzam nesta jornada que damos o nome de “Vida” são os ingredientes constantes dessa viagem temporária.

E é exactamente nas pessoas que me quero focar aqui e agora. No “Livro da minha Vida”, o qual está cheio dessas personagens, umas entraram por uma razão, outras por uma temporada. Mas todas essas, quer eu hoje ainda mantenha contacto com elas ou não, não as posso apagar da minha vivência, é irreversível essa acção, elas estão lá, pertencem ao meu passado e moldaram, de uma forma ou de outra, o meu crescimento como pessoa e fizeram-me avançar ao longo dos anos. Quando digo avançar não é a questão de ser sempre em frente, porque o caminho não é sempre em frente, é como as escadas, nem sempre servem para subir. E às vezes é preciso dar uns passos para o lado para podermos prosseguir. Às vezes fazem-se paragens para reabastecer energias, colocar combustível para a viagem que prossegue. Não sei se a minha viagem vai parar ao acaso ou se eu serei avisado que o fim desta se aproxima. Como diz o Peixoto “Num dia, avisado ou sem aviso, morrerei. Estas mãos serão nada. Este rosto será nada.” E virá quando o meu papel neste mundo deixar de fazer sentido porque atingi o seu propósito. Acredito nisto. A vida funciona, por vezes, por caminhos misteriosos. Mas as pessoas. As pessoas que dedicámos o nosso Tempo, Bondade, Amor, Lealdade, Firmeza, Personalidade e outras dezenas de valores, essas são as que mais preenchem as folhas dessa novela transformada em Livro e são as memórias de muitas delas que levarei comigo. Muitas delas também partilharam fúrias, mentiras, desilusões, dores, usos e egoísmos, mas elas estão lá, na página 325 ou 432 do Livro das nossas vidas. Seja uma frase, um mencionar um nome, algo, elas estão lá. Não arranques as páginas do Livro, não o quererás incompleto. Porque assim somos, com as nossas experiências, com as nossas vivências e convivências, envolvimentos e acasos. A minha Irmã que é assim uma pessoa ENORME costuma dizer que o ser humano não pode nunca ficar só no mundo, não sobreviveria, porque é sua natureza socializar, partilhar, confraternizar. De facto, a felicidade é um estado de espírito mas para mim “só faz sentido quando partilhada”, disse o grande Emile Hirsch em Into The Wild. E como ele está certo. Pelo menos para mim.

Às vezes penso se a minha vida tivesse uma etiqueta de preço, que valor estaria lá marcado. Se bem que o valor não existe por si só e é também criado, por nós, pelas pessoas que estão connosco, que estiveram connosco, que estarão connosco. Afinal, todos somos mestres e todos somos alunos. E “quando o aluno está pronto para aprender, o professor sempre aparece”, certo Robin Sharma? E oh! Tenho sido contemplado com professores e professoras ao longo da minha vida, que com as suas ideias e formas de ser, moldam-me, fazem-me questionar, transformam-me. Alguns são presentes divinos, pessoas tão grandes que a sua existência viverá comigo muito para além desta vida. E eu na deles, tenho a certeza. Apesar de ser um admirador da humildade, não devemos ser humildes ou modestos ao ponto de acharmos que as nossas acções e existência são tão fúteis ou sem valor que não temos impacto na vida de alguém. Este texto poderá fazer-te levar a pensar em alguma situação que viveste, que te transformou, que te fez tomar alguma acção. Sou eu alguém que te impactou? Talvez, tu saberás melhor do que eu, uma vez que eu não sei quem está desse lado, e, a perder tempo comigo🙂

Às vezes, o que vivemos ou fazemos bate na carapaça da indiferença e há memórias que são só nossas, mesmo que partilhadas. Mas não. Não. Nã, nã, não vou deixar o meu coração numa caixa de plástico, todos os dias, e só o usar de vez em quando. O que é uma vida morna, uma de Outono, quando tudo é razão e carapaça, comparada com este espírito indomável de Amor que vive, habita, respira e se transforma dentro de nós, este Amor brutal pela vida e pelas suas personagens que o meu coração entorna a cada instante de vida?

Uma única vida é pouco para isto tudo.

Bruno Piairo Teixeira

One Response to “O Livro da Minha Vida”

  1. Nem imaginas a força e impacto que as tuas palavras me trouxeram agora.
    Hoje tive uma experiência quase que sobrenatural.
    Tive um abrir de olhos gritante e urgente para aquilo que devo fazer por forma a conseguir finalmente ser eu sem muros nem véus que escondem tudo o que vai dentro e só nos consome. É extremamente difícil ouvir de uma pessoa que não conheces de parte nenhuma, que tu és o teu maior obstáculo. Que tens de derrubar todos os alicerces construídos estes anos todos, para poderes ver o que só o que fica de pé é importante. E só depois disto, juntar as peças e voltar a construir uma nova vida. Temos de saber viver com as cicatrizes que a vida nos fez até agora, mas esquecer quem as fez. Estou de rastos. Muita coisa faz sentido. Muita coisa é irrelevante. A partir de agora tenho de apanhar as contas do colar desfeito, e escolhe-las a dedo recomeçando tudo de novo. O meu livro vai agora ser escrito mas não a tinta transparente. Obrigada. Outra coisa que tenho de dizer mais vezes, não só por educação, mas de coração.

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