A Revista Happy Diz: “Saiba Como Ser Ainda Mais Feliz…”

Aprenda A Ser Ainda Mais Feliz

Foi tão “chocante” para mim como verdade. A revista dizia mesmo isto. Como muitas vezes efectuo pré-julgamentos de tudo, decidi um dia poder desfolhar a revista e tirar as teimas. Até podia ser que o artigo pudesse falar de outra coisa qualquer e usassem a expressão em causa apenas como uma metáfora. Mas estava enganado. Desta vez, as minhas suspeitas estavam correctas.
Um dia fui ao bar do local onde labuto e a revista estava escarrapachada em cima de uma mesa, como que esquecida por alguém, mas ali, como se à minha espera. Não hesitei e li…

Escrito por uma jovem que entrevistou algumas amigas, as respostas são, na minha opinião, hilariantes, face à pobreza de espíritos que aí habita entre nós, sim, nós, os que achamos que importa SER mais e não TER mais, porque esses são os novos Homens e as novas Mulheres, como dizia o grande Osho Rajneesh.
Bem. Primeiro que tudo, assim que vejo que uma revista nos pode dizer como podemos aprender a ser ainda mais felizes, noto logo que há algo de profundamente errado. Uma revista é que nos vais ensinar a ser ainda mais felizes??? A minha interrogação começou logo aí, por isso fiquei tão curioso em saber o que é que a revista aconselhava ou se eu estava a ver tudo de uma forma crítica sem fundamento.

Ao procurar o artigo, eis que me deparo com alguns conselhos de como ser ainda mais feliz. Se eu já estava indignado com o facto de ter de ser uma revista a dizer-me como eu poderia de facto ser ainda mais feliz, eis que a jovem “jornalista”, nas entrevistas que efectuara, obteve as seguintes respostas das amigas e amigos: “mais dinheiro, nomeadamente o € Milhões”, “mais viagens”, “emagrecer mais uns quilinhos”, “ir a Spas com regularidade”, “colocar silicone (!) para aumentar o peito”, mas tudo na mesma onda de pensamento. Não consegui evitar, até porque o fiz inconscientemente, abanar a cabeça em contestação.
Mas como é que uma pessoa pode ser ainda mais feliz assim, se tudo gira em volta de coisas estéticas ou de bens materiais? Será que é tão estranho assim eu contestar que esse tipo de felicidade é tão vazia, pequena, trivial? E onde estava tudo o que nos torna melhores, o desprender de coisas más que carregamos dentro das nossas cabeças? Essas drogas sociais que carregamos nas nossas cabeças e nos nossos corações, onde estavam os ingredientes interiores, esses que nos mantêm sãos e bons, humildes mas perspicazes, o amar melhor, ser menos orgulhoso, fazer aquelas viagens interiores ao centro de nós e escavar, procurar respostas acerca de quem somos, para onde vamos, qual o lugar onde estamos no mapa das nossas vidas, como podemos de facto ser grandes com G GRANDE? Perguntava eu para onde caminhávamos a pensar nas respostas que as pessoas davam quando lhes perguntavam o que necessitariam para ser ainda mais felizes. Será que seria por já estarem satisfeitas com a forma como eram interiormente e tinham tudo de acordo com o melhor que se pode esperar de uma pessoa? Desculpem, mas não creio. Tudo isso é um processo que demora anos, disciplina, vontade e é muito difícil. Talvez por isso seja mais fácil olhar para fora e desejar “coisas” exteriores. Olhar para dentro, afinal, dói. Pensar dói. E quem quer dor? Ninguém.
Eu não nego que algumas coisas exteriores nos dão conforto, viajar faz bem e dinheiro sempre dá uma certa segurança para as surpresas da vida, etc. etc., mas só isto não. E não houve uma alma que se dignasse a dar uma resposta inteligente, completa, pensada…

Gostaria todavia, e apesar de diria até, triste, de deixar uma coisa clara: eu não culpo essas pessoas. Afinal todos os dias somos bombardeados com um sistema de consumo brutal, um sistema em que as indústrias de Marketing injectam ideias e produtos dentro das nossas cabeças e casas que não necessitamos, fazendo-nos prisioneiros de que, para sermos bem sucedidos temos de guiar o carro XPTO ou ser esbelto e bonito de cortar a respiração, de termos aquele corpo todo definido, de sermos um Dr. ou Eng. e trabalhar naquele grupo empresarial conceituado. É o que faz ver tanta TV ou filmes de Hollywood. Estamos cada vez mais afastados de nós. Não admira que tanta gente se sinta tão vazia por vezes. Mas eu entendo. Eu também sou vítima, não sou isento. Só que, para não me desviar demasiado do que me levou a escrever, jamais deixarei que seja uma revista a dizer-me o que eu preciso para ser ainda mais feliz. De facto o conceito de sucesso ou felicidade ou mesmo outro qualquer, pode ser abismalmente diferente de pessoa para pessoa. Este artigo e as suas opiniões são prova viva disso.

A questão fulcral é que ainda há quem compre este lixo. Porque isto vende mesmo. E não admira que as pessoas sejam cada vez mais fúteis e focadas em trivialidades. Não sou melhor nem pior do que elas, mas sinto, pelo menos neste artigo, que estou fora de passo com o mundo, sem dúvida.

Bruno Piairo Teixeira

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