À Procura de Espaço

Eu Sk8park Expo Junho 2009
Mudei de roupas, de cores, queimei a pele, desarrumei o quarto, troquei coisas de lugar, desfiz-me de molduras velhas e de fotografias amarelas, deixei de dar importância ao que não é importante, tenho ido por caminhos diferentes, odeio rotinas, oiço músicas diferentes e estou menos observador, todavia mais atento. Que paradoxo. Espero há tempos por algo que não sei o que é, aliás, apercebo-me agora que estou sempre à espera de alguma coisa. Mas do quê, raios? Não olho para o telemóvel, deixo-o em casa, uso cores diferentes, combinações estranhas. Como se não quisesse saber do que fica bem com o quê porque afinal o que é bonito ou feio? Que se lixe. Não faço a barba, penso em Karma e em impermanência, preparo-me para viver dispensando sempre algum tempo por dia a pensar na morte. Já me chega ser oprimido a entrar a horas num lugar que não conheço onde poucas ou nenhumas pessoas ainda me dizem algo, em horários que não são meus, que são de prisão, impérios de hoje que serão cinzas de amanhã. Que ridículos, as corridas que fazemos e os jogos que jogamos para sermos o número 1. Gigantes com pés de barro. Sinto-me diferente todavia o mesmo, pareço que estou em transe, acordado mas num estado de letargia, só continuo viciado em leitura, que alimento para o espírito, como se os livros fossem drogas, que bom. Vai mais um Shot? E praia, ah praia, areia, água, bendito esse Sol. Tenho agradecido quando páro no meio do mar em cima de uma rocha e olho no horizonte, dizendo de uma forma audível mas sem gritar “obrigado”. De coração mesmo. Que benção os meus pés tocarem em material terreno, gasto, vivido, eterno e sábio. Nem dou pelo tempo passar.

Skate? Sempre, outra droga, começo a pensar que estou viciado em várias coisas que me libertam e me fazem viajar, começando a desprender-me de certos fios que são como prisões. Somos tão vulneráveis e incontroláveis. Sabe bem que assim seja às vezes, não saber o que vai acontecer mas apetece espreitar a esquina que aí está para ver o que está do outro lado. Mas oiço a voz de uma amiga que guardo do lado esquerdo do peito “não mudes um único pelo do teu corpo nem uma única célula do teu ser, não tens culpa que não existam óculos que não dêem para se verem emoções”. Agradeço de novo a benção de estar rodeado de pessoas assim. Saudades de coisas que não vivi, mas não de pessoas que já não estão. O Ray é que sabe “se eu perdi alguém ou alguma coisa é porque se calhar nunca foi teu“. Cabrão. Esse gajo sabe. De tudo o que mudei e sinto a mudar, de todos os valores que habitam dentro de mim e que sempre estiveram cá, talvez apenas adormecidos, só de uma coisa continuo a ter vontade: de ser melhor.
Chiça, se morresse hoje e encontra-se o Neruda daqui a uns dias, dizia-lhe “Querido amigo, também eu confesso. Que vivi.

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