Amor De Escrav@?

Se não houver esperanças de que o teu amor seja recebido, o que tens a fazer é não o declarar. Poderá desenvolver-se em ti, num ambiente de silêncio. Esse amor proporciona-te então uma direcção que permite aproximares-te, afastares-te, entrares, saíres, encontrares, perderes. Porque tu és aquele que tem de viver. E não há vida se nenhum deus te criou linhas de força.

Se o teu amor não é recebido, se ele se transforma em súplica vã como recompensa da tua fidelidade, se não tens coração para te calares, nessa altura vai ter com um médico para ele te curar. É bom não confundir o amor com a escravatura do coração. O amor que pede é belo, mas aquele que suplica é amor de criado.

Se o teu amor esbarra com o absoluto das coisas, se por exemplo tem de franquear a impenetrável parede de um mosteiro ou do exílio, agradece a Deus que ela por hipótese retribua o teu amor, embora na aparência se mostre surda e cega. Há uma lamparina acesa para ti neste mundo. Pouco me importa que tu não possas servir-te dela. Aquele que morre no deserto tem a riqueza de uma casa longínqua, embora morra.

Se eu construir almas grandes e escolher a mais perfeita para a rodear de silêncio, ficarás com a impressão de que ninguém recebe nada com isso. E, no entanto, ela enobrece todo o meu império. Quem quer que passa ao longe, prosterna-se. E nascem os sinais e os milagres.

Não importa que o amor que alguém nutre por ti seja um amor inútil. Desde que tu lhe correspondas, caminharás na luz. Grande é a oração à qual só responde o silêncio; basta que o deus exista.

Se o teu amor é aceite e há braços que se abrem para ti, então pede a Deus que salve esse amor de apodrecer. Eu temo pelos corações cumulados.

Antoine de Saint-Exupéry, in ‘Cidadela’

One Response to “Amor De Escrav@?”

  1. Meu Deus!!! Como é engraçado!…

    Nunca tinha reparado como é curioso um laço…

    Um fita dando voltas que se enrosca…
    Mas não se embola.
    Vira, revira, circula e pronto:
    Está dado o laço.

    Assim como um abraço:
    Coração com coração.

    Tudo isso cercado de muito braço.

    É assim que é o laço:
    Um abraço no presente…
    No cabelo…
    No vestido…
    Em qualquer coisa que faço.

    E quando puxo uma ponta,
    O que é que acontece?

    Vai escorregando… devagarzinho… Desmancha… desfaz o abraço.

    Solta o presente, o cabelo…
    E na fita que curioso,
    Não faltou nenhum pedaço.

    Ah! Então é assim o amor, a amizade.
    Tudo o que é sentimento?
    Como um pedaço de fita?

    Enrosca, segura um pouquinho,
    Mas pode desfazer a qualquer hora, Deixando livre as duas pontas do laço.

    Por isso é que se diz:
    Laço afectivo, laço de amizade…

    E quando alguém briga, então se diz: Romperam-se os laços…

    Assim é o amor…
    Não prende, não escraviza,
    Não aperta, não sufoca.
    Porque quando vira nó,
    Já deixou de ser laço.

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